Durante muito tempo, os golpes distribuídos pela internet quase sempre estavam associados a e-mails de phishing, páginas falsas, mensagens suspeitas ou banners exibidos em sites de procedência duvidosa. Embora essas modalidades continuem bastante presentes, a publicidade digital abriu uma nova possibilidade para os cibercriminosos: investir dinheiro para que conteúdos fraudulentos sejam apresentados diretamente ao público dentro de plataformas que já fazem parte da rotina dos usuários.
O Facebook e o Instagram estão entre os ambientes que mais favorecem esse tipo de abordagem. Um anúncio patrocinado aparece integrado ao fluxo normal de conteúdo, ao lado de publicações de amigos, vídeos de criadores, páginas de empresas e outros materiais que o internauta considera legítimos. Essa inserção no ambiente habitual ajuda a reduzir a percepção de risco, principalmente porque muitas pessoas associam a presença de um conteúdo em uma grande plataforma a algum nível de validação prévia.
Essa associação, porém, não corresponde à realidade. O fato de um conteúdo estar sendo distribuído como anúncio não significa que ele seja confiável, e os próprios números divulgados pelas plataformas mostram a dimensão do problema. A Meta informou ter removido mais de 159 milhões de anúncios fraudulentos durante 2025 e vem ampliando os mecanismos utilizados para identificar anunciantes e redes relacionadas a golpes.
Investimento sombrio: quando o anúncio cria confiança
A publicidade digital oferece aos criminosos algo que mensagens encaminhadas aleatoriamente dificilmente conseguem proporcionar: contexto. A fraude chega ao usuário dentro de um ambiente familiar e assume a aparência de um conteúdo que, à primeira vista, poderia ter sido publicado por uma empresa, um influenciador ou até pelo próprio aplicativo.
Isso permite que o anúncio seja construído para produzir uma sequência bastante específica. Primeiro, o conteúdo chama a atenção. Em seguida, apresenta uma situação que parece relevante ou urgente. Por fim, oferece uma ação aparentemente simples para resolver o problema ou obter algum benefício.
Esse modelo já é amplamente utilizado em campanhas de phishing e engenharia social, mas ganha características particularmente interessantes quando aplicado aos formatos de vídeo curto. Em vez de apresentar uma página explicitamente suspeita, o criminoso pode utilizar um reel (clipe curto do Instagram) para simular uma situação que parece ocorrer no próprio dispositivo da vítima.
E por falar nos reels…
Um dos formatos que merece atenção é o uso de vídeos que se iniciam normalmente, mas, a determinado tempo, exibem na tela uma cópia fidedigna de mensagens de alerta (como os da Defesa Civil) ou janelas de sistema. O conteúdo pode mostrar, por exemplo, uma suposta notificação informando que o celular está infectado, que determinado aplicativo está desatualizado ou que uma falha de segurança precisa ser corrigida.
A mensagem costuma ser acompanhada de elementos visuais que lembram interfaces reais, incluindo botões, ícones, caixas de diálogo e indicações de que o usuário deve tocar em determinada área para fechar o aviso ou solucionar o problema. Como esses elementos são apresentados dentro de um vídeo, não existe de fato nenhuma janela interagindo com o sistema operacional. O que existe é uma peça publicitária construída para induzir o clique.

Quando o usuário toca na região indicada, pode estar interagindo com o próprio anúncio e sendo encaminhado para uma página externa. A partir daí, a campanha pode apresentar um falso processo de atualização, solicitar informações pessoais, oferecer o download de um aplicativo ou conduzir a vítima por uma série de redirecionamentos até um ambiente controlado pelos criminosos.
Esse tipo de abordagem é especialmente eficiente porque aproveita um comportamento bastante comum: diante de uma mensagem que parece indicar um problema técnico, muitas pessoas tendem a agir primeiro e verificar a legitimidade da informação depois.
A evolução do ClickFix
A dinâmica possui relação direta com o crescimento do ClickFix, técnica de engenharia social na qual a vítima é convencida a executar uma ação que supostamente corrigirá um problema, mas que, na realidade, contribui para o comprometimento do dispositivo ou para a instalação de um malware.
A ideia central dessas campanhas é deslocar parte do trabalho do atacante para a própria vítima. Em vez de explorar diretamente uma vulnerabilidade técnica, o criminoso procura convencer o usuário a executar determinadas instruções sob a justificativa de que elas são necessárias para resolver um problema.
Os anúncios com falsos alertas em reels podem ser entendidos como uma extensão dessa lógica. A engenharia social começa antes da página maliciosa. O anúncio introduz o problema, a mensagem visual cria a sensação de urgência e o clique conduz o usuário para a próxima etapa. Em alguns casos, o ataque pode evoluir até um cenário em que a vítima é orientada a realizar novas ações manualmente, caracterizando aquilo que vem sendo descrito de forma mais ampla como scam-yourself.
Essa mudança é importante porque amplia o conceito de ataque. O problema já não está necessariamente em um arquivo malicioso ou em uma vulnerabilidade do dispositivo, mas na capacidade do criminoso de conduzir o usuário por uma sequência de decisões aparentemente razoáveis.
O ROI da fraude cibernética
Outro ponto que ainda causa surpresa é a ideia de que um criminoso possa simplesmente comprar anúncios. Existe uma percepção de que campanhas fraudulentas dependem apenas de mensagens gratuitas, contas falsas ou links espalhados em grupos e comentários. Na realidade, a publicidade digital se tornou suficientemente acessível para que esse tipo de investimento também faça parte do repertório de operações criminosas.
Criar uma campanha patrocinada não exige os mesmos recursos financeiros ou técnicos necessários para uma campanha publicitária tradicional. O custo pode ser relativamente baixo, principalmente quando comparado ao possível retorno obtido com uma operação bem-sucedida.
O criminoso não precisa convencer milhares ou milhões de pessoas para obter lucro. Em determinados golpes, algumas dezenas de vítimas podem ser suficientes. Se o anúncio custa algumas centenas de reais e uma parcela dos usuários atingidos acaba entregando credenciais, dados financeiros, informações pessoais ou instalando um software malicioso, o retorno potencial pode superar muitas vezes o valor investido na distribuição da campanha.
Esse modelo apresenta uma característica particularmente interessante para quem opera uma fraude em escala: o anúncio permite testar diferentes mensagens e formatos, identificar quais geram mais cliques e direcionar a campanha para públicos com maior probabilidade de interação. Trata-se, em essência, da aplicação de ferramentas tradicionais de marketing a uma finalidade criminosa.
A aparência de legitimidade
O grande diferencial desses golpes está justamente na dificuldade de perceber que existe algo errado antes do clique. O usuário não necessariamente recebe uma mensagem claramente suspeita ou um link enviado por um desconhecido. Em muitos casos, ele encontra um vídeo bem produzido, dentro do Instagram, com uma aparência semelhante à de inúmeros conteúdos legítimos.
É nesse momento que a familiaridade com a plataforma pode trabalhar a favor do atacante. A pessoa tende a confiar mais em um conteúdo apresentado dentro do ambiente que já utiliza diariamente, especialmente quando a peça visual reforça essa sensação de legitimidade.
Por isso, campanhas de conscientização precisam ir além de orientações como “não clique em links suspeitos”. O usuário também precisa compreender que elementos visuais podem ser falsificados, que um anúncio patrocinado não representa uma garantia de autenticidade e que uma mensagem exibida dentro de um vídeo não possui qualquer relação necessária com o sistema operacional ou com o aplicativo utilizado no dispositivo.
A distinção entre uma interface real e uma representação gráfica dela se torna especialmente importante nesse contexto. Uma janela de alerta desenhada dentro de um reel não tem qualquer autoridade sobre o celular. Da mesma forma, um botão mostrado em um vídeo não corresponde automaticamente a uma função do aplicativo.
Um novo desafio da engenharia social
Os golpes em anúncios mostram como a engenharia social continua se adaptando aos hábitos digitais das pessoas. À medida que os usuários passam mais tempo consumindo vídeos curtos e conteúdo patrocinado, os criminosos encontram novas oportunidades para inserir seus mecanismos de fraude nesse fluxo.
O problema, portanto, não está apenas no conteúdo malicioso, mas na combinação entre publicidade, design, urgência e comportamento humano. Quando esses elementos são utilizados em conjunto, até mesmo um anúncio visualmente simples pode funcionar como a porta de entrada para uma operação muito mais sofisticada.
A principal mudança de percepção necessária é entender que a publicidade patrocinada deixou de ser apenas um mecanismo de divulgação comercial. Para os cibercriminosos, ela também pode funcionar como uma ferramenta de distribuição e engenharia social, capaz de colocar a fraude diante de um número grande de usuários com um investimento relativamente pequeno.
2º PAINEL ESKIVE - Cibercrime e a Epidemia de Insiders
Assista ao debate multifacetado entre nossa CEO, Priscila Meyer, e especialistas do mercado sobre a “febre” das ameaças internas e como o ecossistema de segurança está lidando com o fenômeno. ⭣

