Skip to content
Engenharia Social

Golpe do falso advogado: conheça a fraude do momento

Quadrilhas de cibercriminosos estão lucrando milhões se passando por falsos escritórios de advocacia e solicitando pagamentos via Pix; saiba mais.

Golpe do falso advogado: conheça a fraude do momento
Ramon de Souza

Ramon de Souza

(ISC)² Certified in Cybersecurity | Journalist | Author | Speaker

min de leitura

 

Nos últimos meses, o chamado golpe do falso advogado deixou de ser uma ocorrência pontual e passou a ganhar escala nacional, com prejuízos que vão de alguns milhares a dezenas de milhares de reais por vítima.

A lógica é simples e, justamente por isso, eficiente: cibercriminosos se aproveitam de dados reais de processos judiciais, fingem ser o advogado da causa ou um representante do escritório e pressionam a vítima a fazer transferências urgentes, quase sempre via Pix, sob a promessa de liberar um suposto crédito.

A situação é tão grave que até mesmo diversas repartições estaduais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) elaboraram uma cartilha gratuita para tratar o tema, descrevendo-o como uma fraude que explora engenharia social e acesso a informações públicas dos processos, tornando a abordagem convincente para quem está aguardando uma decisão, um pagamento ou a liberação de valores.

Como essa fraude costuma acontecer?

Na maioria das vezes, o contato geralmente vem por WhatsApp, mas também pode ocorrer por ligação, e-mail ou perfis falsos em redes sociais. A OAB-SP explica que os golpistas podem invadir ou clonar o WhatsApp do advogado ou do escritório, usar foto e logotipo verdadeiros e até se apresentar como secretária ou outro membro da equipe para parecerem ainda mais legítimos.

Em muitos casos, o criminoso já conhece o nome da parte, o número do processo e algum detalhe relevante da causa — dados o suficiente para criar uma conversa com alto nível de autenticidade e pressionar o alvo por um pagamento imediato. Essa combinação de informações reais com urgência emocional é o ponto central da fraude. A vítima recebe uma mensagem que parece “fechar” com a sua queixa jurídica: um processo em andamento, um valor a receber, uma audiência marcada, uma taxa a ser quitada.

O golpe funciona porque transforma algo burocrático e lento em uma situação de emergência. A pessoa, já ansiosa para resolver uma demanda judicial, tende a responder rápido e a confiar em quem parece dominar os detalhes do caso. A própria cartilha da OAB-SP destaca que esses crimes cibernéticos se aproveitam de processos públicos e em abordagens adaptáveis, inclusive com uso de tecnologias mais sofisticadas, como ferramentas de inteligência artificial para dar mais credibilidade à fraude.

Quais são as técnicas mais usadas?

A primeira técnica é a engenharia social: o golpista não precisa “invadir” o sistema judicial, mas apenas convencer a vítima de que está diante de uma comunicação legítima. A segunda é o phishing, com mensagens falsas que imitam instituições confiáveis e levam a páginas ou contatos fraudulentos. A terceira é a exploração de chaves Pix e contas bancárias, com pedidos de transferência para “liberar” valores supostamente travados.

Em outras palavras, o golpe não se limita a uma única estratégia; ele mistura comportamento humano, engenharia de comunicação e fraude financeira numa sequência bem calculada.

Outro aspecto importante é a aparência de normalidade. Muitas abordagens são feitas em tom profissional, com linguagem técnica, menção a honorários, custas, taxas judiciais e prazos. Há casos em que o criminoso chega a enviar documentos, prints e informações parcialmente verdadeiras, justamente para reduzir a desconfiança.

De acordo com as autoridades, a orientação é clara e já conhecida entre quem acompanha os conteúdos da Eskive: jamais confiar apenas em mensagens recebidas por WhatsApp e sempre confirmar a veracidade por canais oficiais, por ligação conhecida, vídeo chamada direta ou comparecimento presencial ao escritório.

Por que o golpe vem crescendo tanto?

Há pelo menos três fatores que ajudam a explicar a expansão desse golpe. O primeiro é a grande circulação de dados processuais na internet. O segundo é o uso massivo de aplicativos de mensagem como canal de contato cotidiano, o que dá ao fraudador um ambiente perfeito para se passar por um interlocutor legítimo. O terceiro é a própria velocidade com que os criminosos adaptam a fraude.

A dimensão do problema já chamou a atenção de autoridades policiais. Em São Paulo, a Polícia Civil prendeu 16 pessoas em um “call center” que aplicava o golpe do falso advogado; segundo a apuração, a estrutura tinha divisão de tarefas, notebooks, celulares e outros equipamentos, e os investigadores afirmaram que o grupo acessava dados de processos públicos, se passava pelo advogado da vítima e cobrava supostas taxas judiciais e honorários.

A própria investigação descreveu a organização como estruturada e tecnologicamente apoiada, o que reforça que não se trata de ação isolada de oportunistas, mas de um modelo de crime com método e escala.

Os casos que demonstram a gravidade

Em Araçatuba, uma manicure de 65 anos perdeu R$ 55 mil após receber mensagens pelo WhatsApp de alguém que se apresentava como seu advogado, participar de uma videochamada e seguir orientações para acessar aplicativos financeiros; horas depois, percebeu diversas transferências em suas contas.

Em outra frente, a Polícia Civil da Bahia deflagrou a Operação Falsa Ordem contra uma organização criminosa de estelionatos eletrônicos e fraudes virtuais; a investigação apontou que o grupo movimentou mais de R$ 4,2 milhões e atuava em vários estados, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Pernambuco.

No próprio relato da polícia, um dos principais golpes era o do falso advogado, com acesso a informações reais de processos judiciais para enganar as vítimas. Isso mostra que a fraude não depende de um único grupo local; ela se insere em um ecossistema mais amplo de crimes digitais e interestaduais.

Também houve um alerta oficial da Agência SP sobre uma quadrilha do falso advogado desarticulada pela Polícia Civil paulista em parceria com a OAB-SP. Segundo a publicação, o grupo movimentou cerca de R$ 10 milhões em apenas seis meses, entre outubro de 2025 e abril deste ano, o que revela a velocidade com que esse tipo de fraude pode gerar lucro criminoso.

Em conjunto, esses dados ajudam a explicar por que o tema ganhou tanta visibilidade: não se trata apenas de um golpe “novo”, mas de uma prática que foi se refinando, profissionalizando e se espalhando.

O que as autoridades estão recomendando?

A cartilha da OAB-SP é uma das peças mais úteis de orientação porque fala tanto com advogados quanto com clientes. Ela recomenda que os profissionais reforcem a comunicação oficial com seus clientes, informem previamente quais canais realmente usam, avisem que não solicitam pagamentos prévios por mensagem e deixem claro que qualquer pedido financeiro deve ser confirmado por meio de contato conhecido e oficial. A cartilha também orienta a reunir prints, guardar comprovantes e registrar boletim de ocorrência quando o golpe já aconteceu.

Na mesma linha, outras autoridades orientam algumas práticas de segurança digital que já conhecemos bem: evitar pagamentos tratados por WhatsApp, adotar o uso de autenticação em duas etapas, utilizar uma assinatura padronizada nas comunicações oficiais, realizar o registro de Boletim de Ocorrência e preservar as mensagens e números usados no contato. Em outras palavras, a prevenção depende menos de uma única solução tecnológica e mais de uma rotina de confirmação e rastreabilidade.

Os processos públicos ajudam ou atrapalham?

Aqui entra uma discussão inevitável. Os processos, em regra, são públicos e que seus movimentos e decisões podem ser acessados por qualquer pessoa, salvo quando há segredo de justiça; além de que, em determinados tribunais, é possível verificar quem consultou os autos. Esse cenário sustenta a transparência do Judiciário, mas também oferece matéria-prima para os golpistas montarem uma abordagem muito convincente.

Isso não significa que a publicidade dos processos seja, por si só, um erro. A transparência judicial é um princípio relevante, protege o controle social e permite o acompanhamento das ações. O problema está na facilidade com que dados sensíveis podem ser localizados, cruzados e explorados por criminosos.

Talvez a resposta mais equilibrada não seja simplesmente “fechar tudo”, mas criar barreiras mais inteligentes: acesso mais protegido a certos detalhes, alertas automáticos de consulta, maior anonimização de informações e mecanismos de verificação mais robustos para comunicação com partes. Essa é uma questão que merece um debate sério, porque opõe dois valores importantes: transparência e segurança.

Como não cair no golpe?

A regra mais importante é desconfiar de qualquer pedido de dinheiro feito com urgência inesperada, ainda mais quando vem por WhatsApp, e-mail ou número desconhecido. Se a mensagem disser que há um valor para liberar, uma taxa a pagar ou um crédito iminente, o correto é interromper a conversa e confirmar o contato por meio do canal que você já usa com o advogado ou com o escritório. A checagem deve ser feita por ligação conhecida, e-mail habitual, videochamada direta ou presença física no escritório.

Também é essencial conferir a conta indicada para o Pix. A OAB-SP orienta verificar se o destinatário é uma conta do Poder Judiciário, do escritório ou do próprio advogado. Outra medida prudente é manter registros das conversas, salvar prints e guardar comprovantes, inclusive para que a investigação possa avançar rapidamente se houver fraude.

Quando já houve prejuízo, o ideal é registrar Boletim de Ccorrência e reunir o máximo possível de evidências, como número de telefone, mensagens, dados do processo e comprovantes de transferência.

Por fim, vale lembrar que o golpe do falso advogado costuma explorar exatamente o momento em que a pessoa está mais vulnerável: a expectativa de receber um dinheiro importante ou de encerrar uma demanda judicial longa. Por isso, a defesa mais eficaz é a prudência. Não basta reconhecer que o processo existe; é preciso confirmar quem está falando com você, por qual canal, com qual autoridade e com qual justificativa. Quando a conversa envolve dinheiro, a pressa quase sempre é o maior sinal de alerta.

E o mais importante é…

A lição central é que o golpe do falso advogado não depende apenas de tecnologia; ele depende de confiança. Os criminosos se alimentam da relação de credibilidade construída entre cliente e advogado, e usam essa confiança contra a própria vítima. Por isso, a resposta precisa ser igualmente relacional: comunicação clara, canais oficiais, confirmação ativa e educação preventiva.

Se as fraudes crescem porque encontram portas abertas, o antídoto começa por fechá-las com método. Um simples hábito de conferência pode evitar prejuízos altos, dor de cabeça e, em muitos casos, a perda de economias de uma vida inteira.

Em um cenário em que os golpistas se adaptam rapidamente, a melhor proteção continua sendo a mesma de sempre: desacelerar antes de transferir, confirmar antes de pagar e desconfiar sempre que a pressa vier acompanhada de uma promessa boa demais para ser verdadeira.


2º PAINEL ESKIVE - Cibercrime e a Epidemia de Insiders
Assista ao debate multifacetado entre nossa CEO, Priscila Meyer, e especialistas do mercado sobre a “febre” das ameaças internas e como o ecossistema de segurança está lidando com o fenômeno. ⭣

2º Painel Eskive - Cibercrime e a Epidemia dos Insiders

 

Últimos artigos

Golpe do falso advogado: conheça a fraude do momento

Golpe do falso advogado: conheça a fraude do momento

Quadrilhas de cibercriminosos estão lucrando milhões se passando por falsos escritórios de advocacia e solicitando pagamentos via Pix; saib...

Por que seu programa de conscientização tem baixa eficiência?

Por que seu programa de conscientização tem baixa eficiência?

Cultura punitiva, pressão por metas de produtividade e conteúdos repetitivos são alguns dos entraves mais comuns.

Insiders maliciosos: o que são as ameaças internas em cibersegurança?

Insiders maliciosos: o que são as ameaças internas em cibersegurança?

Como o crime organizado e a coação de colaboradores transformaram o fator humano em uma grande ameaça da segurança digital.