Novembro chegou e, com ele, um dos períodos mais movimentados do calendário comercial. Tradicionalmente associado à Black Friday, o mês passou por uma transformação nos últimos anos: o que antes era concentrado em um único dia de promoções se expandiu para semanas inteiras de ofertas, campanhas e condições especiais. Assim nasceu a chamada Black November, uma temporada de descontos que movimenta o comércio eletrônico e amplia as oportunidades de compra para consumidores.
Entretanto, o aumento das transações comerciais também representa uma oportunidade para outro grupo motivado por lucro material: os cibercriminosos. Aproveitando-se da pressa, da expectativa por descontos e do elevado volume de operações financeiras, golpistas intensificam suas campanhas de fraude, utilizando diferentes técnicas para atrair vítimas, coletar informações pessoais e desviar pagamentos.
O cenário merece atenção. Segundo dados divulgados pela Serasa Experian em setembro de 2026, mais de 50,7 milhões de mensagens associadas a golpes foram identificadas no Brasil durante o primeiro semestre do ano. No mesmo período, foram identificados mais de 20,8 mil anúncios, perfis, páginas e aplicativos falsos, com crescimento de 27,2% em relação ao primeiro semestre de 2025.
Mais do que números, esses indicadores demonstram que a fraude digital está cada vez mais presente nos ambientes utilizados cotidianamente pelos consumidores. Por isso, antes de aproveitar as ofertas da Black November, vale relembrar algumas das principais ameaças e os cuidados necessários para realizar compras com segurança.
Uma das estratégias mais recorrentes durante os períodos promocionais é a criação de lojas virtuais fraudulentas que imitam a identidade visual de grandes varejistas. Os criminosos reproduzem logotipos, banners, fotografias de produtos, páginas de pagamento e até elementos de navegação, criando uma experiência suficientemente convincente para enganar consumidores desatentos.
Essas páginas costumam ser divulgadas por e-mails de phishing, mensagens SMS, aplicativos de comunicação e anúncios em redes sociais. A abordagem geralmente envolve produtos muito procurados, como smartphones, televisores, videogames e eletrodomésticos, anunciados por preços significativamente inferiores aos praticados pelo mercado.
O objetivo pode ser simplesmente receber o pagamento de uma compra inexistente, mas também pode envolver a coleta de dados pessoais, informações de cartões de crédito e credenciais de acesso. Em alguns casos, a vítima ainda recebe mensagens falsas de confirmação do pedido e códigos de rastreamento fictícios, prolongando a aparência de legitimidade da fraude.
Uma recomendação importante é conferir cuidadosamente o endereço eletrônico da loja. Pequenas alterações no domínio, como letras substituídas, palavras adicionais ou terminações diferentes, podem indicar uma tentativa de personificação. Também é importante pesquisar a reputação do estabelecimento, verificar seu CNPJ e procurar avaliações de outros consumidores.
Outro teste complementar pode ajudar a identificar determinadas páginas fraudulentas: adicione um produto ao carrinho, retorne à página inicial da loja e verifique se o item continua armazenado. Em algumas páginas maliciosas, especialmente aquelas construídas como imitações superficiais de lojas legítimas, o carrinho pode desaparecer ou apresentar comportamentos inconsistentes.
Vale lembrar que a presença do cadeado HTTPS no navegador também deixou de ser uma garantia sobre a legitimidade de uma loja. Ela indica que a conexão é criptografada pois possui um certificado SSL/TLS válido, mas não que o estabelecimento seja confiável — já faz anos que qualquer pessoa pode gerar um certificado desses.
As redes sociais também se tornaram importantes canais de distribuição de golpes. Criminosos criam perfis que imitam marcas conhecidas e utilizam anúncios patrocinados para divulgar promoções inexistentes. Como essas publicações aparecem misturadas ao conteúdo habitual das plataformas, muitos consumidores acabam confiando nelas sem verificar sua procedência.
Ao clicar no anúncio, a vítima é direcionada para uma landing page fraudulenta, ou seja, uma página desenvolvida especificamente para induzir determinada ação. Ela pode apresentar um desconto exclusivo, um cupom limitado, um sorteio ou até uma suposta oportunidade de adquirir produtos com condições especiais.
Algumas páginas simulam contadores regressivos, informam quantidades artificialmente limitadas de estoque e apresentam depoimentos falsos de compradores. Esses recursos exploram o senso de urgência e reduzem o tempo disponível para que o consumidor avalie a legitimidade da oferta.
Por isso, mesmo diante de anúncios patrocinados, a recomendação é acessar o site ou aplicativo oficial da empresa por iniciativa própria e verificar se a promoção realmente existe. Não considere o investimento em publicidade, o número de seguidores ou a aparência profissional de uma página como provas de autenticidade.
Outra ameaça que merece atenção especial envolve os meios de pagamento. Com a popularização do Pix e a praticidade dos pagamentos por QR Code, criminosos desenvolveram diferentes estratégias para direcionar valores das compras para contas sob seu controle.
Uma delas é a adulteração de boletos bancários. O consumidor acredita estar pagando uma compra legítima, mas o documento ou sua linha digitável foi modificado para direcionar o dinheiro a um beneficiário diferente. Dependendo da modalidade empregada, a adulteração pode ocorrer em documentos recebidos por e-mail, arquivos baixados ou durante o processamento da transação em dispositivos comprometidos.
No caso do Pix, a lógica é semelhante. Um QR Code legítimo pode ser substituído por outro, direcionando o pagamento para uma conta controlada pelos criminosos. A opção de copiar e colar o código Pix também pode ser explorada. O problema é especialmente relevante: em setembro de 2026, pesquisadores alertaram sobre uma modalidade de fraude que substitui o QR Code de pagamento apresentado em páginas de lojas virtuais.
A principal recomendação é conferir os dados apresentados pelo aplicativo bancário antes de confirmar qualquer operação. Verifique o nome do beneficiário, CPF ou CNPJ, o valor e as demais informações disponíveis. O destinatário deve corresponder à loja ou à instituição de pagamento envolvida na compra. Caso apareça uma pessoa desconhecida ou uma empresa sem relação aparente com a transação, não conclua o pagamento.
O mesmo cuidado deve ser aplicado aos boletos: confira o nome e os dados da empresa beneficiária exibidos pelo banco antes de autorizar a operação. Em caso de divergência, interrompa o pagamento e procure os canais oficiais do estabelecimento. Sempre que possível, também vale priorizar cartões virtuais e plataformas de pagamento reconhecidas, especialmente quando se trata de lojas com as quais você ainda não teve experiência.
O WhatsApp continua sendo um canal bastante explorado para disseminação de fraudes. Durante períodos promocionais, é comum encontrar mensagens prometendo cupons exclusivos, brindes, sorteios, descontos adicionais ou acesso antecipado a ofertas de grandes varejistas.
Essas correntes frequentemente utilizam links encurtados e mensagens que incentivam o compartilhamento com outros contatos ou grupos. Em algumas situações, a vítima é direcionada para formulários que solicitam informações pessoais. Em outras, acaba sendo conduzida a páginas de phishing, downloads maliciosos ou falsas centrais de atendimento.
A regra é simples: não confie em uma promoção apenas porque ela foi encaminhada por alguém conhecido. Antes de acessar qualquer link, procure a oferta nos canais oficiais da empresa. Evite também compartilhar mensagens promocionais sem verificar sua autenticidade, pois isso contribui involuntariamente para a disseminação de campanhas fraudulentas.
Se os golpes tradicionais já representam uma ameaça significativa, a evolução das ferramentas de inteligência artificial acrescenta uma nova camada de complexidade ao cenário.
A IA permite produzir textos de phishing mais naturais, páginas fraudulentas visualmente sofisticadas, mensagens personalizadas e imitações cada vez mais convincentes de vozes e rostos humanos. Isso reduz algumas das características que anteriormente ajudavam a identificar fraudes, como erros ortográficos, construções artificiais de linguagem e vídeos evidentemente manipulados.
Um dos exemplos mais preocupantes é o uso de deepfakes para simular personalidades conhecidas promovendo produtos, serviços ou campanhas comerciais inexistentes. Imagine encontrar um vídeo de um apresentador famoso, empresário ou influenciador anunciando uma promoção extraordinária de uma grande loja. A pessoa aparece falando diretamente com a câmera, apresenta o produto e recomenda que os consumidores aproveitem a oportunidade.
Não se trata apenas de uma possibilidade teórica. Em 4 de novembro de 2026, o Ministério Público de São Paulo deflagrou a Operação Merovingian, que investiga um grupo suspeito de utilizar inteligência artificial para criar vídeos falsos com imagens e vozes de personalidades conhecidas, incluindo o mundialmente conhecido médico Dr. Drauzio Varella, em anúncios fraudulentos nas redes sociais.
Durante a Black November, campanhas semelhantes podem ser utilizadas para promover descontos inexistentes, falsos sorteios e produtos que sequer existem. A familiaridade com a personalidade apresentada deixa de ser um indicativo confiável de autenticidade.
Por isso, vídeos, áudios e depoimentos de pessoas conhecidas também precisam ser verificados. Procure a mesma oferta nos canais oficiais da marca ou da personalidade envolvida e desconfie de conteúdos que direcionem o consumidor para páginas desconhecidas ou exijam pagamentos imediatos.
A Black November representa uma oportunidade para consumidores e empresas, mas também exige atenção diante do aumento das tentativas de fraude no ambiente digital.
Antes de concluir uma compra, reserve alguns minutos para verificar a reputação da loja, conferir o endereço eletrônico, validar a origem da oferta e analisar cuidadosamente os dados do pagamento. Mantenha dispositivos e aplicativos atualizados, utilize senhas fortes e autenticação multifator e evite acessar links promocionais de procedência desconhecida.
O principal cuidado é não permitir que a expectativa por um bom desconto substitua a avaliação crítica de uma oportunidade. Preços extraordinários, urgência artificial e a utilização de marcas ou personalidades conhecidas são recursos frequentemente explorados pelos criminosos.
Em um cenário no qual a inteligência artificial amplia a capacidade de produzir fraudes cada vez mais sofisticadas, a informação e a atenção continuam sendo ferramentas essenciais de proteção. Aproveitar as ofertas de novembro é perfeitamente possível, desde que a segurança faça parte da decisão de compra.
3º PAINEL ESKIVE - Cibercrime e os Golpes Omnichannel
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