A aposentadoria representa segurança financeira para milhões de brasileiros. Para muitas famílias, o benefício pago pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) é a principal (ou até mesmo a única) fonte de renda mensal. Essa importância, somada à previsibilidade dos pagamentos, faz com que aposentados e pensionistas sejam alvos frequentes de fraudes.
Entre os problemas mais comuns estão os descontos indevidos de mensalidades associativas e os golpes envolvendo empréstimos consignados. Em alguns casos, pequenas cobranças permanecem durante meses sem serem percebidas. Em outros, a vítima descobre um empréstimo que nunca contratou e passa a ter parcelas descontadas diretamente da aposentadoria.
Por isso, saber como funciona a fraude do INSS, acompanhar os extratos e reconhecer abordagens suspeitas são cuidados fundamentais para proteger o benefício.
A expressão “fraude do INSS” costuma ser utilizada para descrever diferentes irregularidades que atingem aposentadorias, pensões e outros benefícios previdenciários. Isso não significa, necessariamente, que o golpe seja praticado pelo próprio Instituto. Muitas fraudes são cometidas por criminosos, correspondentes irregulares, associações ou empresas que utilizam dados dos beneficiários sem autorização.
O objetivo normalmente é obter dinheiro por meio de cobranças recorrentes, contratar crédito em nome da vítima ou convencê-la a realizar pagamentos e transferências. Como os valores podem aparecer misturados a outros lançamentos no extrato, a irregularidade nem sempre é identificada rapidamente. Uma cobrança aparentemente pequena, repetida durante vários meses, pode causar um prejuízo significativo.
Algumas associações e sindicatos oferecem serviços aos aposentados, como assistência jurídica, descontos em consultas, seguros ou convênios. Quando o beneficiário realmente deseja se associar, pode autorizar que a mensalidade seja descontada diretamente de sua aposentadoria ou pensão.
A fraude acontece quando esse desconto é incluído sem uma autorização válida. Em determinadas situações, o aposentado nunca ouviu falar da entidade. Em outras, pode ter recebido uma ligação, respondido a uma pesquisa ou fornecido dados sem perceber que aquela interação seria apresentada como uma suposta adesão.
Como a mensalidade geralmente possui valor menor do que uma parcela de empréstimo, ela pode passar despercebida. Por isso, o beneficiário deve consultar regularmente o extrato de pagamento no Meu INSS e observar descrições relacionadas a associações, sindicatos ou contribuições que não reconhece. O governo disponibiliza um serviço específico para consultar descontos de entidades associativas.
O problema ganhou repercussão nacional com a Operação Sem Desconto, deflagrada pela Polícia Federal em conjunto com a Controladoria-Geral da União. A investigação passou a apurar um esquema de descontos associativos não-autorizados aplicados diretamente em aposentadorias e pensões.
Segundo informações divulgadas pelo Governo Federal em abril de 2025, as entidades investigadas receberam aproximadamente R$ 6,3 bilhões em cobranças consideradas suspeitas entre 2019 e 2024. O valor representa o total analisado no período e não significa, por si só, que todas as cobranças tenham sido definitivamente classificadas como fraudulentas. A investigação buscou identificar autorizações falsas ou inexistentes e possíveis falhas nos controles.
A operação teve diferentes desdobramentos. Em março de 2026, por exemplo, a Polícia Federal informou a prisão de um foragido investigado por desvio de recursos relacionados ao caso, demonstrando que a apuração continuou avançando. Além da responsabilização dos envolvidos, o episódio reforçou a necessidade de os aposentados acompanharem os próprios benefícios. Não basta observar apenas o valor depositado na conta: é importante verificar cada desconto registrado no extrato.
No empréstimo consignado, as parcelas são descontadas diretamente do benefício. Como o pagamento é considerado mais previsível para a instituição financeira, essa modalidade costuma oferecer juros menores. A mesma característica, porém, torna aposentados e pensionistas alvos atraentes para os fraudadores.
Um dos golpes mais comuns ocorre quando criminosos utilizam dados pessoais, documentos ou imagens da vítima para contratar um empréstimo sem consentimento. O aposentado pode perceber a fraude ao encontrar um depósito inesperado em sua conta ou notar uma nova parcela no benefício.
Também existem abordagens por telefone ou WhatsApp nas quais o golpista promete revisão da aposentadoria, portabilidade de crédito, redução de juros, liberação de valores ou devolução de parcelas. Durante a conversa, solicita fotos de documentos, reconhecimento facial, códigos de confirmação ou acesso à conta Gov.br.
O dinheiro pode até ser depositado na conta da vítima. Em seguida, o criminoso afirma que houve um “erro” e orienta a devolução para outra conta. A vítima transfere o valor, mas permanece responsável pelo empréstimo verdadeiro.
Como medida adicional de segurança, o processo atual prevê o bloqueio e desbloqueio do benefício com biometria. Também existe uma etapa de confirmação pelo Meu INSS: após a contratação, o beneficiário tem até cinco dias para confirmar a operação, e o empréstimo somente é liberado depois dessa confirmação, conforme o serviço oficial de confirmação de consignado.
O cuidado mais importante é consultar periodicamente o extrato de pagamento e o extrato de empréstimos consignados. Mesmo que o valor recebido pareça correto, confira a origem de cada desconto. Se não pretende contratar crédito, mantenha o benefício bloqueado para empréstimos. O desbloqueio pode ser feito somente quando houver interesse real em uma contratação, utilizando os canais oficiais.
Nunca compartilhe a senha da plataforma Gov.br, códigos recebidos por SMS, dados completos do cartão ou imagens para reconhecimento facial. Também não instale aplicativos de acesso remoto a pedido de supostos funcionários. Bancos e órgãos públicos não precisam controlar a tela do celular do beneficiário para liberar valores.
Desconfie de urgência, dinheiro inesperado ou promessa de vantagem fácil. Ao receber uma proposta, encerre o contato e procure a instituição por um telefone obtido no site oficial, no aplicativo ou no verso do cartão.
Ao encontrar uma mensalidade desconhecida, registre a contestação pelo Meu INSS e acompanhe as orientações apresentadas na plataforma. Como regras e prazos podem ser atualizados, a consulta deve ser feita diretamente pelo aplicativo, pelo site oficial ou pela Central 135.
No caso de empréstimo consignado fraudulento, entre imediatamente em contato com a instituição financeira pelos canais oficiais. O pedido de exclusão e as reclamações devem ser encaminhados pelo Consumidor.gov.br, conforme orientação do serviço federal. Também é recomendável bloquear novas contratações, guardar extratos, mensagens e comprovantes e registrar um boletim de ocorrência.
Se houver um depósito desconhecido, não transfira o dinheiro para a conta indicada por quem entrou em contato. Procure primeiro o banco pelos canais oficiais e solicite instruções formais.
A fraude do INSS pode começar com um desconto de poucos reais ou com uma proposta aparentemente vantajosa de empréstimo. Em ambos os casos, a prevenção depende de atenção aos extratos, proteção dos dados pessoais e desconfiança diante de contatos não solicitados.
A aposentadoria é um direito construído ao longo de muitos anos. Reservar alguns minutos por mês para conferir o benefício pode evitar perdas financeiras, endividamento e grandes dificuldades para recuperar valores desviados.
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