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# Dia das Crianças: conscientização e a zona cinza do controle parental

Embora ferramentas para tutores existam e façam um bom trabalho, ainda há ambientes online nos quais menores de idade podem ser alvos de assédio e abuso.

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09/10/2026 às 10h00 | 13 min de leitura

 

O Dia das Crianças é uma oportunidade para celebrar a infância, mas também para refletir sobre os desafios de proteger crianças e adolescentes em um mundo cada vez mais conectado. Se, por um lado, as novas tecnologias oferecem entretenimento, aprendizado e novas formas de interação, por outro, esses mesmos ambientes podem expor os mais jovens a assédio, aliciamento, exploração sexual e outras formas de violência digital.

O mercado dispõe de uma variedade crescente de ferramentas de controle parental, capazes de limitar o tempo de tela, bloquear conteúdos inadequados, restringir aplicativos e acompanhar determinadas atividades online. Ainda assim, os casos de violência contra crianças e adolescentes na internet continuam a preocupar especialistas e autoridades.

O problema está, em parte, naquilo que essas ferramentas não conseguem enxergar. Entre as configurações de segurança do celular e a realidade das interações digitais, existe uma zona cinzenta: conversas privadas, comunidades fechadas, chats de jogos e aplicativos de mensagens nos quais um contato aparentemente inofensivo pode se transformar em uma situação de risco.

É nesse espaço que a tecnologia, embora indispensável, encontra seus limites. E é justamente por isso que o controle parental precisa ser acompanhado de diálogo, educação digital e participação ativa dos responsáveis.

### O que dizem os números sobre a violência infantil na internet?

Os dados da SaferNet Brasil ajudam a dimensionar a gravidade do problema. Entre janeiro e julho de 2025, a organização recebeu 49.336 denúncias anônimas de imagens de abuso e exploração sexual infantil na internet. O volume representou um crescimento de 18,9% em comparação com o mesmo período de 2024 e correspondeu a aproximadamente 64% de todas as 76.997 denúncias recebidas pelo canal no intervalo analisado.

O balanço anual também reforça o alerta. Em 2025, a SaferNet registrou 63.214 denúncias únicas de imagens de abuso e exploração sexual infantil, a segunda maior marca de sua série histórica, atrás apenas de 2023. Os registros consideram links distintos, e não necessariamente vítimas ou episódios individuais. Portanto, não devem ser interpretados como uma contagem direta de crianças abusadas.

Esses números revelam a dimensão de um problema que não pode ser resolvido apenas com bloqueadores de conteúdo ou restrições de acesso. Uma parte importante da violência digital acontece por meio da interação entre pessoas: alguém conquista a confiança de uma criança, tenta levá-la para uma conversa privada, solicita imagens íntimas, ameaça divulgar conteúdos ou a convence a manter a relação em segredo.

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O risco não está restrito a sites explicitamente criminosos. Ele pode surgir em plataformas populares, comunidades de jogos, redes sociais e aplicativos utilizados diariamente por milhões de pessoas.

### Como o controle parental pode falhar mesmo quando está ativado?

As ferramentas de controle parental cumprem funções importantes. Dependendo do serviço, permitem definir limites de uso, aprovar downloads, restringir compras, filtrar páginas e monitorar determinadas atividades. Entretanto, seus recursos variam de acordo com o dispositivo, o sistema operacional e o aplicativo utilizado.

Um filtro pode bloquear um site conhecido por distribuir conteúdo inadequado, mas não necessariamente identificar uma conversa na qual um adulto se apresenta como adolescente. Um relatório de tempo de tela pode indicar que uma criança passou duas horas jogando, sem revelar o que aconteceu nos chats durante esse período.

Também existem limitações de visibilidade. Algumas conversas ocorrem em aplicativos independentes, enquanto outras estão integradas aos próprios jogos. Uma criança pode iniciar uma partida em um ambiente relativamente controlado e, minutos depois, ser convidada a entrar em um servidor externo, adicionar alguém em outra rede social ou continuar a conversa por mensagens privadas.

Esse deslocamento entre plataformas dificulta o acompanhamento. Mesmo quando os responsáveis configuram corretamente o aparelho, não há garantia de que todas as interações serão analisadas ou de que comportamentos manipuladores serão identificados. A chamada zona cinzenta do controle parental não significa que essas ferramentas sejam inúteis — significa que a proteção digital não pode ser confundida com vigilância total ou garantia absoluta de segurança.

### Por que jogos online merecem atenção?

Jogos como Roblox e Fortnite fazem parte da rotina de milhões de crianças e adolescentes. Além de jogar, os usuários podem conversar por texto ou voz, participar de comunidades e interagir com desconhecidos. Essas funcionalidades ampliam as possibilidades de socialização, mas também criam oportunidades para abordagens abusivas.

Em Roblox, por exemplo, a experiência não se limita aos jogos criados pelos usuários. Há sistemas de comunicação e interação social que exigem atenção às configurações de segurança e às restrições adequadas à idade. No Fortnite, os chats de voz e texto podem aproximar jogadores que nunca se encontraram pessoalmente.

O problema não é a existência dessas funcionalidades, mas a possibilidade de alguém utilizá-las para conquistar a confiança de um menor, testar seus limites e, gradualmente, conduzir a interação para um ambiente privado. Esse processo, conhecido como “grooming” ou aliciamento online, pode envolver presentes virtuais, elogios, promessas, chantagem emocional e pedidos de segredo.

### O que os casos envolvendo Telegram e Discord revelam?

O Telegram está entre os exemplos mais preocupantes documentados pela SaferNet Brasil. Em uma análise divulgada em outubro de 2024, a organização identificou mais de 1,25 milhão de usuários em grupos e canais da plataforma nos quais eram comercializadas ou compartilhadas imagens de abuso sexual infantil. A pesquisa examinou 874 links denunciados no primeiro semestre daquele ano e identificou comunidades que continuavam ativas mesmo após as denúncias.

O levantamento seguinte, referente ao segundo semestre de 2024, encontrou 1.043 grupos e canais denunciados, um aumento de 19%. Entre eles, 171 continuavam ativos com imagens de abuso sexual infantil e sem moderação identificada pela pesquisa, crescimento de 78% em relação ao primeiro semestre. Considerando os dois períodos, a SaferNet identificou 2,65 milhões de usuários em grupos e canais com esse tipo de conteúdo.

É importante esclarecer que esses números representam usuários encontrados em comunidades analisadas, não necessariamente indivíduos que produziram ou consumiram material criminoso de forma comprovada. Ainda assim, os resultados evidenciam a escala do problema e levantam questionamentos sobre a capacidade de detectar, remover e impedir a reincidência de atividades ilegais.

O Discord também passou a receber atenção crescente de pesquisadores, autoridades e organizações de proteção à infância. A plataforma é popular entre comunidades de jogos e permite a criação de servidores com canais de texto, voz e vídeo. Essa estrutura favorece a interação entre pessoas com interesses comuns, mas pode igualmente ser explorada por grupos que promovem abusos, aliciamento e outras formas de violência.

Em agosto de 2026, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) instaurou um processo de fiscalização para apurar possíveis falhas do Discord na proteção de crianças e adolescentes. A investigação envolveu questões como mecanismos de verificação de idade, prevenção de riscos, remoção de conteúdo violador e comunicação às autoridades. Naquele mesmo mês, a SaferNet informou ter encaminhado documentação técnica às autoridades sobre redes criminosas identificadas na plataforma.

Essas iniciativas não significam que todo usuário ou comunidade desses serviços represente uma ameaça. O ponto central é outro: quando mecanismos de moderação e proteção falham, ambientes digitais legítimos podem ser utilizados para organizar atividades criminosas e atingir pessoas vulneráveis.

### Como identificar os sinais de aliciamento e assédio online?

Nem toda interação suspeita começa com uma ameaça explícita. Muitas vezes, o agressor tenta estabelecer uma relação de confiança antes de introduzir assuntos inadequados ou solicitar informações pessoais.

Mudanças bruscas de comportamento, preocupação excessiva com a privacidade de determinadas conversas, recebimento de presentes de desconhecidos e insistência em manter amizades online em segredo merecem atenção. Outros sinais incluem pedidos de fotografias íntimas, convites para chamadas privadas, ameaças de exposição e tentativas de afastar a criança de familiares ou amigos.

Nenhum desses comportamentos, isoladamente, comprova que houve abuso. O importante é observar mudanças no contexto e criar condições para que o menor relate situações desconfortáveis sem medo de punição. Também é fundamental explicar que perfis, fotografias e informações pessoais podem ser falsificados. Uma pessoa que afirma ter a mesma idade, frequentar a mesma escola ou compartilhar os mesmos interesses pode não ser quem diz ser.

Crianças e adolescentes precisam saber que não são culpados por serem enganados ou manipulados. Se houver uma situação de risco, a prioridade deve ser acolher, preservar as evidências e procurar ajuda, evitando confrontar o suspeito de maneira que possa aumentar o perigo ou comprometer uma investigação.

### Como proteger crianças e adolescentes além dos filtros tecnológicos?

A proteção digital começa com medidas práticas. Configurar controles parentais, limitar contatos de desconhecidos, restringir compras e transmissões ao vivo, revisar permissões de aplicativos e manter dispositivos atualizados são ações importantes. Também vale verificar as configurações de privacidade dos jogos e das redes sociais utilizadas pela criança, pois os recursos disponíveis variam de uma plataforma para outra.

Entretanto, essas medidas precisam ser acompanhadas de educação digital. Os responsáveis devem conversar sobre privacidade, consentimento, exposição de imagens, chantagem, falsas identidades e os riscos de compartilhar informações pessoais. Essas conversas devem acontecer regularmente, e não apenas depois de um incidente.

O acompanhamento também precisa considerar os ambientes em que a criança circula. Saber quais jogos ela utiliza, quais comunidades frequenta e com quem costuma conversar ajuda a identificar riscos que um relatório automatizado talvez não revele. Isso não exige transformar toda interação em um interrogatório nem eliminar a privacidade do menor, mas estabelecer limites adequados à idade e manter uma presença adulta confiável.

Se houver suspeita de crime, não se deve compartilhar imagens íntimas de menores para pedir ajuda ou tentar confirmar sua autenticidade. É preferível preservar mensagens, nomes de usuário, links e outras informações relevantes sem redistribuir material ilegal, denunciar o perfil à plataforma e procurar as autoridades competentes. No Brasil, denúncias de crimes cibernéticos podem ser encaminhadas à SaferNet, por meio de seu canal de denúncias, em [https://new.safernet.org.br/denuncie](https://new.safernet.org.br/denuncie\)).

### Qual deve ser o papel da tecnologia e da família?

O controle parental é uma camada necessária de proteção, mas não deve ser tratado como uma solução completa. Nenhum aplicativo consegue substituir integralmente a percepção, a experiência e o vínculo de confiança que um adulto responsável pode construir com uma criança.

Neste Dia das Crianças, o melhor investimento em segurança talvez seja dedicar tempo para conhecer o universo digital dos menores, ouvir suas experiências e explicar os riscos sem recorrer apenas ao medo ou à proibição. Quando uma criança sabe reconhecer uma abordagem inadequada e tem certeza de que poderá procurar um adulto sem ser humilhada ou castigada por contar o que aconteceu, ela ganha uma ferramenta de proteção que nenhum filtro consegue oferecer sozinho.

A tecnologia deve fazer parte da solução. Mas o diálogo, a educação, a conscientização e o acompanhamento próximo continuam sendo indispensáveis para reduzir os riscos e construir ambientes digitais mais seguros para crianças e adolescentes.

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