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Cultura de denúncia: criando canais e incentivando o reporte de ameaças

Escrito por Ramon de Souza | 30/01/26 16:15
30/01/2026 às 13h15 | 12 min de leitura

 

Na segurança da informação, muitas vezes, a primeira pessoa a se deparar com uma anomalia não é um analista do SOC, mas sim um colaborador comum. Seja um e-mail com uma linguagem estranha, um anexo fora de contexto ou um link recebido por mensagens instantâneas: essas primeiras observações acontecem na ponta.

Quando essa pessoa se sente segura para reportar, a organização ganha tempo precioso para investigar, conter e remediar. Quando não se sente, os sinais permanecem isolados e o ataque tem mais oportunidade de prosperar. Assim, a denúncia é um sensor humano distribuído, capaz de ampliar a superfície de detecção para além dos controles tecnológicos.

O que é cultura de denúncia?

Cultura de denúncia é um comportamento coletivo no qual os colaboradores reconhecem riscos, sabem como comunicá-los e confiam que serão ouvidos sem sofrer retaliação. Essa cultura inclui clareza sobre o que reportar, simplicidade no ato do reporte e transparência sobre o tratamento das informações.

Não se trata de criar um mecanismo punitivo, nem de transformar erros em exposição pública. Também não é um substituto para controles técnicos, mas um complemento que amplia a visibilidade e reduz o tempo necessário até a detecção.

É importante desmistificar a ideia de que denúncias aumentam o risco. No curto prazo, uma elevação no número de comunicações pode parecer um sinal de fragilidade. Na verdade, um crescimento inicial de relatos costuma indicar que o canal está funcionando e que os colaboradores confiam o suficiente para usar o método apropriado.

Com o tempo, essa visibilidade permite intervenções precoces, aprendizado organizacional e redução do impacto dos incidentes.

Por que os colaboradores não denunciam?

A decisão de denunciar é influenciada por fatores psicológicos, sociais e processuais. O medo de punição está entre os motivos mais citados — ninguém quer ser associado a uma falha que poderia comprometer sua avaliação de desempenho. Vergonha e estigma também travam o fluxo de comunicação, especialmente quando o episódio envolve erro humano, como clicar em um link malicioso ou inserir credenciais em uma página fake.

Além disso, muitas pessoas não sabem distinguir um incidente digno de reporte de um falso positivo, o que as leva a hesitar. Processos complexos ou lentos, formulários extensos e a sensação de que nada é feito após o envio de uma denúncia corroem a confiança no sistema. Experiências anteriores em que o denunciante recebeu pouco retorno ou foi ignorado consolidam o silêncio como comportamento padrão.

Entender essas barreiras é fundamental para desenhar intervenções eficientes. A escuta empática e a análise qualitativa dos motivos pelos quais as pessoas evitam reportar ajudam a ajustar mensagens, simplificar fluxos e restaurar a confiança.

Como incentivar o reporte e transformar a denúncia em hábito?

Incentivar o reporte é menos sobre tecnologia e mais sobre confiança. O primeiro passo é comunicar claramente que a organização valoriza e recompensa a prontidão em reportar. Essa comunicação deve ser consistente, direta e livre de vieses punitivas. Use frases que reforcem que o objetivo é proteger a operação, e não punir o indivíduo, tornando a atitude de reportar socialmente aceitável.

Além da comunicação, o design do fluxo de reporte precisa reduzir atritos. Um botão acessível, a integração com ferramentas de colaboração e a possibilidade de reportar rapidamente por formulários curtos tornam o ato menos complexo. Economizar o tempo dos colaboradores é essencial: se reportar consome minutos preciosos e gera burocracia, muitas pessoas vão optar pelo silêncio.

O retorno é outro elemento decisivo. Quando um colaborador recebe confirmação de que a sua comunicação foi recebida junto com uma explicação simples sobre as ações iniciais que serão tomadas, a sensação de contribuição é validada. Um feedback rápido, mesmo que apenas confirmando que a questão está sob análise, incentiva futuros reportes.

O reconhecimento também desempenha papel relevante. Não se trata de criar um programa de prêmios monetários por denúncias, o que poderia fomentar reports espúrios, mas de reconhecer internamente que um determinado reporte ajudou a proteger colegas, sistemas ou clientes.

Os treinamentos orientados ao reporte, mais do que ao medo de ameaças, complementam essa abordagem. Simulações que apresentam cenários de reporte e destacam o processo passo a passo ajudam a diluir barreiras cognitivas. Em treinamentos, enfatize que a incerteza não é razão para a omissão; quando em dúvida, reportar é a atitude responsável.

Por fim, é crucial trabalhar com liderança e gestores de linha. Quando chefias tratam reportes com calma e incentivam a comunicação aberta, o sinal se propaga. A liderança tem papel central em modelar o comportamento: reagir com ponderação a um relato transmite segurança e cria permissões culturais para que outros façam o mesmo.

Quais métricas realmente indicam confiança e eficácia?

Medir cultura de denúncia exige cuidado para não confundir volume com risco. Uma métrica interessante é a taxa de reporte por mil colaboradores, que ajuda a normalizar o indicador para diferentes tamanhos de organização. Outra métrica relevante é o tempo médio entre a percepção da ameaça e o envio do reporte; uma redução nesse intervalo indica maior prontidão e eficácia do canal.

A qualidade das denúncias também precisa ser considerada. Um aumento inicial em relatos pode vir acompanhado por maior taxa de falsos positivos, o que é esperado e aceitável enquanto o uso do canal se estabiliza. Com o tempo, espera-se melhora na precisão dos relatos, reflexo de aprendizado e de feedback educacional.

Correlação entre aumento de reportes e redução do impacto de incidentes é o indicador mais persuasivo para a liderança. Se o uso consistente do canal resulta em detecções mais rápidas, menos escalonamentos e menor impacto financeiro, a causalidade passa de plausível para prática. Medidas como redução do tempo médio de contenção e diminuição do custo médio por incidente sustentam argumentos de investimento.

Por fim, métricas de experiência do denunciante, como tempo de resposta ao reporte e índice de satisfação com o processo, oferecem insight direto sobre a confiança. Se colaboradores relatam que receberam retorno rápido e se sentem confortáveis usando o canal, a cultura está se consolidando.

Como apresentar a iniciativa ao board de maneira convincente?

Para o conselho, enquadre a cultura de denúncia como um aperfeiçoamento dos sensores de segurança, com custo relativamente baixo e alto potencial de retorno. Apresente comparações concretas: quanto tempo os controles técnicos levam, em média, para detectar ataques; quanto tempo um colaborador bem instruído levou na fase piloto.

Traduza ganhos em termos que a liderança entende, por exemplo redução do tempo médio para detecção e contenção, diminuição do impacto operacional e proteção da reputação.

Use estudos de caso internos ou da indústria para ilustrar como um reporte precoce evitou danos maiores. Mostre um cenário hipotético com números: probabilidade de ocorrência, custo médio por incidente, redução estimada por intervenção humana precoce e o retorno esperado do investimento em programas de conscientização e canais de denúncia. Esse tipo de modelagem torna a decisão menos abstrata.

É igualmente importante expor riscos reputacionais e regulatórios associados à ausência de canais efetivos. Em ambientes regulados, a capacidade de demonstrar que a organização possui mecanismos para detectar e responder prontamente a incidentes pode influenciar avaliações externas e até mitigar sanções.

Não se esqueça também de propor um roadmap de implementação com marcos claros, métricas de sucesso e pontos de revisão, demonstrando governança e responsabilidade na execução.

Implementação: o que priorizar

Nos primeiros 60 dias, priorize ações que reduzam atritos e gerem sinais visíveis de mudança. Comece auditando os canais existentes, conversando com usuários para identificar gargalos e mapeando o percurso completo do reporte até a resolução. Simplifique o fluxo de entrada, removendo campos desnecessários e garantindo integrações com ferramentas de uso cotidiano pelos colaboradores.

Implemente um protocolo de resposta que assegure confirmação imediata ao denunciante. Mesmo uma mensagem automática que indique que o caso foi recebido e que o processo de triagem foi acionado reduz a ansiedade e demonstra atenção. Simultaneamente, lance uma comunicação institucional que explique o propósito do canal, reforce a não-punição em incidentes involuntários e descreva, de forma simples, o que será feito com as informações recebidas.

Realize sessões rápidas com líderes de área para alinhamento e peça que eles apoiem a iniciativa em suas equipes. Colete feedbacks contínuos durante esse período e esteja preparado para ajustar mensagens e processo com base nas respostas. Por fim, defina as primeiras métricas a serem monitoradas, estabeleça um relatório simples e compartilhe resultados iniciais com a alta liderança para manter visibilidade e legitimidade.

Denunciar é, em última instância, proteger

Denunciar é um ato de responsabilidade coletiva que antecipa a reação técnica. A organização que cultiva confiança e facilita o reporte transforma colaboradores em vigilantes ativos, prontamente engajados quando algo foge do padrão. Essa postura reduz o tempo de exposição, limita a lateralidade de ataques e preserva ativos, clientes e reputação.

Além disso, o aprendizado gerado por denúncias alimenta processos de melhoria contínua, permitindo que a empresa ajuste controles, mensagens e treinamentos com base em evidências reais.

A cultura de denúncia não é um programa temporário. É uma mudança de postura que requer comunicação consistente, retorno transparente e liderança exemplar. Quando bem implementada, ela muda a narrativa. Em vez de ver as pessoas como potenciais pontos de risco, a organização passa a enxergá-las como os primeiros sensores de defesa. Isso transforma a segurança de um esforço isolado em um compromisso compartilhado.

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