O Carnaval é a melhor desculpa do ano para esquecer a rotina: a cidade vira um palco, a atenção se dispersa e o ócio vira prioridade. Também é a melhor desculpa para golpistas, que adoram multidões, calor humano e celulares desprotegidos. Eles não aparecem com máscara de carnaval; aparecem com técnicas que exploram pressa, confusão e, não raramente, a boa fé de quem só quer aproveitar uns dias de folia.
O que muda nesse período do ano não é apenas o ritmo das marchinhas — é o ritmo das transações. Quando a festa acelera, as validações desaceleram. Resultado: a margem de erro para pagamentos e trocas financeiras aumenta e, com ela, a chance de perder dinheiro (ou perder horas explicando para o gerente do banco que não foi você quem gastou R$ 500 em um abadá).
Este artigo não pretende transformar curtir a festa em um manual de paranóia. A ideia é oferecer prudência prática e um pouco de desconfiança saudável. Uma atenção bem colocada evita muitos contratempos e, acredite, permite voltar para a festa com menos histórias tristes e mais confetes.
Por que o risco financeiro aumenta no Carnaval?
O Carnaval reúne fatores que, isolados, já são problemáticos; juntos, tornam o ambiente perfeito para fraudes digitais. Há mais pessoas circulando, mais vendedores informais, mais maquininhas portáteis e mais pagamentos instantâneos. Além disso, o consumo ocorre em ruas, calçadas e praças, locais onde conferências rápidas e checagens detalhadas raramente fazem parte da rotina.
Se somarmos álcool, deslocamento e o celular na mão, temos um cenário em que validar informações passa a ser um luxo que poucos se dão. Golpistas sabem disso e ajustam a técnica. Eles sabem que, em meio ao bloco, você provavelmente aceitará a primeira solução que aparece para pagar um refrigerante ou um espetinho. E, se aparecer uma promoção milagrosa via link no WhatsApp, alguns instintos, infelizmente, decidem por nós.
Os golpes mais frequentes
Há golpes clássicos que voltam todo ano e novidades que se adaptam ao momento. No presencial, a manipulação de maquininhas e a troca de cartões continuam eficazes. O fraudador apresenta uma maquininha com o visor apagado ou te distrai enquanto outra máquina substitui a legítima. Às vezes, a técnica é mais simples e cruel: pegar o cartão para “passar” e devolver outro plástico, ficando com o seu original para compras.
No ambiente das transferências instantâneas, o Pix é um instrumento comum de fraude. QR Codes adulterados, cobranças com valor diferente do anunciado e transferências feitas após o roubo do celular são variantes que exploram a rapidez da ferramenta.
No digital, a engenharia social reina. Wi-Fi falso instalado próximo aos pontos de evento se oferece como cortesia e, em troca, captura dados. Totens de carregamento improvisados podem transmitir mais do que energia. Mensagens por SMS, WhatsApp e redes sociais com links para ingressos, abadás e “promoções de última hora” redirecionam para páginas de phishing que coletam senhas e dados.
São golpes planejados para parecerem urgentes e vantajosos. Se algo soa como uma pechincha muito generosa… Ligue o alerta: provavelmente é.
Como a inteligência artificial entrou na folia dos golpistas
A arma mais nova no caixa de ferramentas dos criminosos é a inteligência artificial. Ferramentas que geram voz e imagem com qualidade surpreendente permitem falsificações cada vez mais convincentes. Chega ao ponto em que um áudio “do seu amigo” pedindo ajuda financeira pode ser perfeitamente construído por um gerador que replica timbre e jeito de falar a partir de clipes públicos. Vídeos falsos podem legitimar pedidos e persuadir.
Mensagens automatizadas, criadas com base em dados públicos sobre eventos, criam narrativas plausíveis o suficiente para enganar. Isso não significa que todo áudio desconhecido é fraudulento, mas apenas que a margem de confiança diminuiu. A verificação passou a exigir um pouco mais de ceticismo e, sempre que possível, checagens alternativas.
Como reduzir a chance de ser vítima?
Reduzir riscos envolve um conjunto simples de ações que, aplicadas sem histeria, fazem diferença. Primeiro, na hora de pagar com cartões, confira o valor na maquininha antes de digitar qualquer senha.
Se o visor estiver apagado, peça para ver o número do terminal ou recusar a operação até encontrar um ponto de venda legítimo. Prefira passar o cartão pessoalmente, sem entregá-lo na mão de terceiros. Para o Pix, confira o nome do favorecido e o valor antes de confirmar. Se algo parecer estranho, cancele e procure uma forma de pagamento alternativa.
Evite conectar-se a redes Wi-Fi abertas em áreas de eventos e pontos comerciais. Se precisar de internet, usar dados móveis (4G ou 5G) é mais seguro. Não clique em links que prometem ingressos milagrosos ou descontos absurdos, especialmente se vierem por mensagens instantâneas.
Use carregadores portáteis próprios, pois totens públicos de tomadas USB podem ser armadilhas prontas para entregar malwares. Ative notificações de transações no celular para perceber cobranças não autorizadas imediatamente. E, se possível, utilize opções como cartões virtuais e limites menores em carteiras digitais durante os dias de festa.
Caí em um golpe! E agora?
A rapidez muda o resultado. Ao notar qualquer movimentação suspeita, bloqueie o cartão pelo aplicativo do banco ou entre em contato com a central de atendimento. No caso de Pix, acione o banco imediatamente para tentar reversão e documente tudo: prints, comprovantes e conversas.
Se o celular foi roubado, bloqueie o chip e o aparelho, preferencialmente via sistema de gerenciamento remoto, e altere senhas pelo computador ou outro dispositivo seguro. Além disso, registre um boletim de ocorrência.
Esse último passo é mais do que protocolo: é a esperança prática de rastrear e recuperar valores, além de ser a base para contestações junto a instituições financeiras.
A parte dos organizadores e comerciantes
Lutar contra as fraudes em massa não é obrigação apenas do folião. Organizadores de eventos, promotores e vendedores têm papel significativo. Emboço de medidas efetivas: estabelecer pontos de carregamento oficiais e seguros, identificar claramente redes Wi-Fi autênticas, treinar vendedores sobre verificação de valor e uso adequado de maquininhas e adotar práticas claras para venda de ingressos.
Informações simples, divulgadas nos canais oficiais do evento, ajudam a reduzir a superfície de ataque. Trabalhar em parceria com bancos e operadoras para oferecer canais de suporte durante o evento aumenta a confiança do público. Um evento bem organizado apresenta menos oportunidades para quem quer se aproveitar da festa.
Controles técnicos andam juntos com a educação
Sistemas antifraude, monitoramento e detecção automatizada são fundamentais, mas não mágicos. Eles funcionam melhor quando as pessoas sabem o que observar e quando as regras de resposta estão definidas. A primeira detecção muitas vezes ainda será humana: alguém percebe uma cobrança estranha ou uma tela que não faz sentido.
Por isso, campanhas educativas antes e durante o evento, orientações visíveis no ponto de venda e canais de resposta rápidos são parte da equação. A governança transforma medidas avulsas em processos que realmente reduzem impactos. Pilar tecnológico sem preparo humano é gasto; tecnologia com público informado é investimento.
Curtir sem danos ao bolso
Resumindo: se tiver pouco tempo, faça o minimalismo funcionar a seu favor. Reduza o número de aplicativos financeiros ativos no telefone, ative notificações de transações, prefira cartões virtuais ou limites reduzidos para compras na rua e leve apenas o essencial.
Use carregador pessoal e mantenha saldo controlado em carteiras digitais. Ao receber ofertas por mensagem, não ceda à pressão induzida por quem quer vender; promoção que exige pressa é promoção que provavelmente esconde armadilha.
Carnaval combina festa e vulnerabilidade. Golpistas gostam da distração tanto quanto da bateria de um bom trio elétrico. A diferença entre uma história de festa e uma história de prejuízo costuma ser uma checagem rápida, uma decisão aparentemente chata e uma notificação que você não ignorou. Com um pouco de cuidado, a festa continua sendo festa.
Curtir não exige desconfiança permanente, apenas algumas cautelas que não estragam a alegria e que, no final, garantem que você volte para casa com boas memórias e o extrato bancário intacto.
1º PAINEL ESKIVE - Desafios e Estratégias contra o Cibercrime no Brasi
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